Santuário de Aparecida vira palco de disputas políticas em ano eleitoral

A presença de políticos no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo, vai além das tradicionais manifestações de fé. Em ano eleitoral, a participação de lideranças nas celebrações religiosas também ganha dimensão política, em meio à disputa pela aproximação com eleitores ligados ao catolicismo.

A relação entre autoridades e a Basílica não é recente. Em 1961, o então presidente Juscelino Kubitschek presenteou o santuário com a torre do relógio, estrutura de aproximadamente 100 metros de altura, após um pedido feito por um arcebispo.

Nas últimas décadas, diferentes lideranças também passaram pelo local. Jair Bolsonaro visitou o templo em 2018, antes de assumir a Presidência, e voltou em 2021 e 2022. Geraldo Alckmin, atual vice-presidente, e Gilberto Kassab, dirigente político ligado à articulação eleitoral, também são nomes presentes em agendas relacionadas ao santuário.

A Basílica já recebeu ainda candidatos à Presidência em diferentes eleições. Em 2018, Ciro Gomes e Fernando Haddad estiveram no local. Em 2010, José Serra e Dilma Rousseff também visitaram o templo durante a disputa presidencial.

Fé e estratégia eleitoral

Para o cientista político José Maurício Cardoso, a presença de candidatos em igrejas, santuários e romarias transmite mensagens ao eleitorado. Segundo ele, a participação nesses espaços pode ser interpretada como uma tentativa de demonstrar proximidade com os valores e sentimentos de determinados grupos religiosos.

Cardoso avalia que símbolos como Nossa Senhora Aparecida têm forte presença na cultura brasileira e podem mobilizar a população. Essa influência também aparece em debates sobre aborto, família, tradições e costumes, temas que frequentemente ocupam espaço nas campanhas eleitorais.

O especialista ressalta que referências religiosas podem ser utilizadas politicamente para despertar identificação emocional. A questão, segundo sua análise, está na forma como esses símbolos são apresentados e incorporados ao discurso público.

Símbolos que ultrapassam a religião

O cientista político Cristiano Noronha, ex-professor da Universidade de Brasília (UnB), também destaca o papel da religião na identidade e no sentimento de pertencimento de parte da população.

Para ele, símbolos como Nossa Senhora Aparecida ultrapassam o campo religioso e assumem significado cultural e nacional. Por isso, manifestações políticas envolvendo esses símbolos podem provocar reações intensas.

A repercussão de episódios desse tipo, segundo Noronha, está relacionada à sensibilidade do tema religioso, à polarização política, à circulação de conteúdos nas redes sociais e à proximidade das eleições.

Nesse cenário, a presença de políticos no Santuário de Aparecida mantém a atenção sobre a relação entre fé e poder. Embora a participação em celebrações não determine, por si só, a preferência dos eleitores, o espaço religioso continua sendo um ambiente de forte significado simbólico para lideranças que buscam dialogar com diferentes segmentos da sociedade.